Hi-Merimã e Jamamadi. A Vida Errante, o Isolamento e o Contato

Por:Karen Shiratori ( doutora em Antropologia Social) e Daniel Cangussu (Coordenador da FPE Madeira-Purus/Funai).

A reabertura e a estruturação das atividades da Frente de Proteção Etnoambiental Madeira-Purus (FPEMP), a partir de 2008, fortaleceu as ações de proteção do território dos Hi-Merimã, povo indígena isolado habitante da margem direita da microbacia do Rio Cuniuá, e reestabeleceu o diálogo com os povos da região, sobretudo os jamamadi, população falante de uma língua arawá, que habita a região do médio curso do Rio Purus (AM). Neste novo cenário, delineia-se um outro momento de reflexão acerca da relação Jamamadi/Hi-Merimã, apontando de forma ampla para uma compreensão mais precisa dos grupos arawá, das políticas públicas destinadas aos povos isolados e de seu entorno, bem como dos próprios conceitos de isolamento e contato.

De acordo com as diretrizes da Funai, os índios considerados em isolamento são aqueles que evitam o contato permanente ou mesmo esporádico com a sociedade nacional ou com outros povos indígenas. A recusa voluntária destas relações historicamente se justifica tanto por conflitos interétnicos quanto pelos efeitos desastrosos do encontro com frentes pioneiras aos quais foram anteriormente submetidos. Na incompreensão que move o contato, os povos indígenas acabam ameaçados em suas especificidades culturais, quando não aniquilados fisicamente por epidemias e toda sorte de violência. Recusar as relações com os indígenas e os não indígenas é uma escolha destes povos em vista de garantir sua sobrevivência física e cultural, portanto não resulta do desconhecimento da existência do mundo exterior, de outros povos indígenas e dos homens brancos.

Cabe ressaltar que a condição de isolamento não deve ser confundida com a ausência completa de contato, uma vez que a dinâmica fluida da territorialidade destes povos não se restringe aos rígidos limites estabelecidos pelas ações demarcatórias do Estado. Ademais, relatos de encontros eventuais sugerem que estes nem sempre ocorrem de forma inadvertida. Movidos pela curiosidade ou pelo interesse em obter objetos manufaturados, sobretudo ferramentas, estes povos buscam de forma eventual e controlada aproximar-se de seus vizinhos ribeirinhos e indígenas para melhor conhecê-los e obter tais bens. A circulação de objetos, por meio de furtos e troca de presentes, é uma via de manter, à distância, a relação com os brancos e indígenas que relativiza o ideal romântico da condição de isolamento, erroneamente entendida como resquício perdido de um passado primitivo, congelado no tempo ou um retrato vivo de como viveriam os indígenas na época da chegada de Cabral.

A Coordenação Geral de índios Isolados e Recém-contatados (CGIIRC) e suas Frentes de Proteção Etnoambiental atuam idealmente segundo a premissa da não obrigatoriedade do contato com os povos em isolamento voluntário. Uma vez constatada a existência de um povo indígena em uma determinada referência, as ações se concentram no monitoramento e na vigilância de seu território, sem intervenções diretas. Um exemplo emblemático desta política foi a homologação, em 1998, da Terra Indígena (Tl) Massaco, a primeira a ser demarcada sem que fosse necessário realizar o contato. Paralelamente, busca-se estreitar o diálogo com os ribeirinhos e povos indígenas em vista de que colaborem com a vigilância e o monitoramento do território.

No Médio Purus, o funcionamento das Bases de Proteção Etnoambiental, instaladas em regiões estratégicas do território hi-merimã – a saber, na foz do Igarapé Canuaru, afluente do Igarapé Mamoriá, e na foz do Igarapé Aripuanã, afluente do Rio Piranha – , dependem da colaboração dos Jamamadi que, cada vez mais, participam das atividades desta FPEMP e cumprem períodos nestas bases. Felizmente, constata-se um interesse crescente por parte dos Jamamadi de que a vigilância de seu território, limítrofe com a TI Hi-Merimã em sua porção sudoeste, através do Igarapé Canuaru, e norte, pelo Igarapé Aripuanã, seja realizada sempre com sua participação, pois eles desejam acompanhar e compreender os trabalhos desenvolvidos pela FPEMP. Esta aproximação demonstra que os desentendimentos cultivados durante anos e as dúvidas que pairam a respeito dos propósitos da construção das bases, além da presença frequente da Funai em seu território, desvanecem paulatinamente conforme os laços com os Jamamadi são fortalecidos.

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Pôr do sol no rio Piranha. Karen Shiratori, 2016.

Os Jamamadi relatam que a região do Igarapé Mamoriá teria sido, no passado, palco de incontáveis conflitos envolvendo os Hi-Merimã, além de outros subgrupos falantes de dialetos da língua madi – falada pelos habitantes do interflúvio do Cuniuá-Purus, como os Wayafi, possivelmente os Hi-Merimã e os Jamamadi atuais – e de guerreiros Apurinã – o nome de um deles, Kamiri, é lembrado até hoje por sua ferocidade. Os ataques mútuos às malocas, a guerra constante e a intensa prática xamânica im ­ pulsionaram a dispersão de parte desses coletivos madi para o interior da terra firme e em direção aos afluentes mais distantes. A estimativa feita pelos Jamamadi é de que essa separação teria ocorrido na segunda metade do século XIX.

Até então, os Hi-Merimã, reconhecidos pelos Jamamadi como parte desse coletivo madi falante de dialetos mutuamente inteligíveis e que habitam as terras firmes da margem esquerda do Médio Rio Purus, integravam sua extensa rede de relações de parentesco, de prestações rituais e de práticas xamânicas. Simultaneamente, a violência e a chegada dos patrões nesta região potencializou conflitos prévios – estes valeram-se de forma oportunista das animosidades existentes com o objetivo de impor seus interesses comerciais colonizadores – , contribuindo, inequivocamente, para a ruptura completa das relações e o isolamento definitivo dos Hi-Merimã.

Antes de seus parentes levarem uma “ vida errante” na mata, de acordo com as palavras dos Jamamadi, o trânsito entre as malocas desses grupos era intenso e constante. Um calendário ritual comum integrava esses coletivos, que se reuniam ao longo de todo o ano em caçadas coletivas e pescarias com timbó, na iniciação xamânica dos rapazes e na saída da menina em reclusão pubertária. Ouvidas a grande distância, as buzinas avisavam as malocas que um ritual, marina, em breve, teria início. Também a prodigalidade de uma colheita ou caçada eram motivos suficientes para que todos se encontrassem para visitar os parentes, banquetear e cantar seus wayoma, gênero musical masculino, e yowiri, gênero musical feminino. Os filhos de pais Hi-Merimã que hoje vivem entre os Jamamadi se ressentem da interrupção dessa rede de relações que interconectava os grupos; assumindo certa responsabilidade, afirmam que seus parentes hoje estão abandonados à própria sorte, privados de vínculos sociais que outrora lhes eram constituintes.

No passado, ao encontrar acampamentos ou vestígios da passagem dos Hi-Merimã, os Jamamadi iniciavam expedições de maneira autônoma, sempre fracassadas, na tentativa de contatá-los. Outras expedições com a finalidade de localizar os Hi-Merimã, igualmente malsucedidas, foram organizadas por missionários que atuavam na região e contaram com a participação dos Jamamadi como guias e intérpretes. Um importante cacique jamamadi da aldeia São Francisco relata que sobrevoou com aqueles missionários extensas áreas da região do Rio Piranha e do Rio Branco em busca de sinais da presença de seus parentes isolados.

Jamamadi
Mowe Jamamadi e André Jamamadi seguram cesto dos isolados HiMerimã  
Karen Shiratori, 2016

Em agosto de 1995, o então coordenador da Frente de Proteção Purus, Rieli Franciscato, interrompeu um grupo missionário da Jocum que havia iniciado uma viagem na região do Rio Branco com o objetivo de contatar os Hi-Merimã; os diários de campo interceptados narram em detalhes os planos e intenções desta organização evangélica. Atualmente, muito embora divirjam da lógica das ações adotadas pela FPEMP, os Jamamadi não insistem no contato e evitam determinadas regiões de seu território quando partem em expedições de caça e extração do óleo de copaiba. Assertivos ao afirmar que foram responsáveis por contatar e amansar os Banawá, os Jamamadi referem-se a este precedente como justificativa de seu desejo de retomar, caso autorizados, as iniciativas de contatar os Hi-Merimã. Em meados da década de 1950, a mando do patrão seringalista Firmino Cunha, três Jamamadi lançaram-se em busca dos Banawá na região do Igarapé Banawá (por estes chamado de kitia). O interesse de Cunha era aumentar o número de seus fregueses e expandir sua rede de fornecedores de seringa, copaiba, castanha, carnes de caça e peles. O relato deste contato revela uma estrutura que emulava a chegada, algumas décadas antes, do patrão Chico Cordeiro às malocas Jamamadi do Rio Aripuanã: a entrega de ferramentas e o ensino de como utilizá-las corretamente; as mudanças no corpo com novos cortes de cabelo e o uso de roupas; o batismo com nomes de brancos; a insistência no consumo de seus alimentos; e o acostumar do paladar ao sal, ao açúcar e, principalmente, à cachaça.

Ainda segundo os Jamamadi, os deslocamentos de seus parentes em isolamento são entendidos como expressão de uma vida errante de fugas contínuas de um passado já superado. Eles continuam fugindo, alimentando-se de frutos escassos, expostos aos perigos da mata e à severidade da vida nômade. 0 isolamento resulta para eles do abandono e do medo; em geral, os Jamamadi não aceitam que negar o contato seja fruto de uma escolha informada. Eles seguem fugindo de guerras findadas por temor de inimigos que há muito deixaram de existir. Os Jamamadi são categóricos ao dizer que hoje não há mais motivos que justifiquem a vida de refugiados, o abandono das práticas agrícolas e a interrupção da relação com seus parentes. 0 contato é preferível à vida de penúria no mato, avalia o cacique da aldeia São Francisco, pois “se eles não têm botas, machucam seus pés nos espinhos e são picados por cobras. Eles são gente, por isso não podem viver à deriva”. A liberalidade dos patrões e a abundância de suas mercadorias fazem contraponto com a escassez marcante do passado ao qual os Hi-Merimã estariam, ainda, condenados, segundo os Jamamadi. A dita bondade dos patrões, contudo, não os faz esquecer que sua “generosidade” lhes impunha dívidas impossíveis de quitar, que os enredavam no trabalho compulsório e que no presente se fazem com a retenção dos cartões de benefício social durante meses.

0 contato, neste sentido, é entendido pelos Jamamadi como a possibilidade de expandir sua rede de relações, resgatar o parentesco fraturado pelas guerras e pela chegada dos patrões, adquirir as mercadorias dos brancos, suas plantas agrícolas, suas ferramentas e seus nomes. Trata-se, evidentemente, de uma aventura perigosa na qual sempre se corre o risco de esquecer-se, leia-se, transforma-se em Jara, branco. Isso não significa que os Jamamadi desejem viver nas cidades em proximidade com os jara, ao contrário, costumam ser esquivos e permanecem discretos em suas incursões urbanas, hoje mensais, limitando suas estadias a poucos dias, o suficiente para receber os benefícios sociais e fazer algumas compras. Nos últimos anos, foram registrados pela FPEMP no interior da TI Hi-Merimã acampamentos sazonais de caça e pesca com timbó, varadouros, grandes habitações e amostras da cultura material, que permitem conhecer um pouco sobre os hábitos alimentares, organização social e dinâmica de ocupação territorial dos Hi-Merimã. Em seus acampamentos centrais é comum encontrar grandes moquéns com restos de caça, além de frutos de patauá, de pequiá e de restos processados de batatas, algumas delas conhecidas pelos pelos Jamamadi como kenero, taiya eyamo (Casimirella ampla), o que sugere a adoção de tecnologias elaborados para manejar a floresta e obter alimentos. A expansão e o uso cada vez mais dinâmico do território, o aumento dos registros de vestígios deixados por crianças, como arcos e flechas de brinquedo, cestarias diminutas, pequenos cortes e quebradas nos pontos baixos das árvores sugerem um crescimento demográfico constante dos Hi-Merimã, que hoje contam com uma população em torno de 50 indivíduos.

As informações obtidas nas expedições de monitoramento do território hi-merimã oferecem um contraponto à perspectiva jamamadi acerca do isolamento e do contato e respaldam as ações de vigilância e proteção adotadas pela FPEMP. Infelizmente, deve-se ressaltar que, a despeito da gradativa reestruturação da Funai ao longo da última década, seu crescente sucateamento com a falta de recursos e pessoal comprometem seriamente o funcionamento da instituição. É patente a cumplicidade do Estado em fazer vistas grossas ao assédio que sofrem os povos indígenas e à ameaça perene da espoliação dos recursos naturais do que restou de suas terras.

Por fim, menos que um impasse, o desencontro das perspectivas sobre o isolamento e o contato apresentadas permite entrever uma trama complexa de relações, que não se resolve através de soluções preconcebidas.

(Publicado originalmente em “Povos Indígenas no Brasil 2011-2016”, pelo Instituto Socioambiental-ISA)

Foto em destaque: Mulheres Jamamadi em varadouro na terra indígena.

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