Especulações sobre diminuição da TI Kawahiva do Rio Pardo acirra conflitos e disputas por terras na região.

Desde o seu reconhecimento por parte do Ministério da Justiça (2015), a Terra Indígena Kawahiva do Rio Pardo, no Mato Grosso, vem sofrendo inúmeros ataques, de um lado os madeireiros ilegais e do outro lado os grileiros de terras.

A Terra Indígena Kawahiva fica nessa rota de grilos e derrubadas ilegais, localizada a 110 km do município de Colniza/MT e a 100 km da Gleba Taquaruçu do Norte, onde recentemente houve um massacre que vitimou 9 pessoas num assentamento, motivado por brigas de terras.

Os madeireiros veem na reserva uma mina vestida de verde, com lucros rápidos possibilitados pela retirada ilegal de madeiras de lei que ainda existem em abundância no interior da terra indígena.

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Madeiras retiradas do interior da terra indígena ilegalmente. Foto do autor.

Com a primeira interdição, no ano de 2001, os “donos” de lotes que estavam dentro da terra indígena tiveram que sair, no entanto, algumas propriedades conseguiram na justiça autorização para manterem suas atividades agropastoris, mas impossibilitados de ampliá-las.  Essas propriedades encontram-se atualmente cobertas de “juquira”, como os regionais chamam a vegetação de porte baixo ou mato que nasce predominantemente em áreas abandonadas (campos de plantio e pastos). Isso se deve ao fato de quando a FUNAI interditou a área, os “donos” destas propriedades não puderam mais derrubar madeiras, como era a prática anterior.

Por outro lado, os grileiros veem nessas áreas a oportunidade de invadir e se estabelecer por pouco tempo até conseguirem vender o lote e partir pra novas empreitadas, como acontece de costume.

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IBAMA e Funai em operação de combate ao desmatamento na TI Kawahiva do Rio Pardo. Fonte: http://www.opantanalonline.com/2016/06/ibama-de-juina-e-funai-impedem-avanco-de-desmatamento-em-area-limite-com-terra-indigena-kawahiva-do-rio-pardo.html

No entorno da terra indígena existe um histórico imenso de brigas entre os “donos” de terras e grileiros. É como um jogo de xadrez. Os “donos” de terras mexem as peças, com informações falsas entre os grileiros que sua propriedade foi vendida,  é quando os grileiros  invadem e derrubam para constituirem seus lotes. Os fazendeiros, então, chegam com seus “guachebas” (seguranças contratados) armados e retiram todos do local, ficando a área  livre para plantarem novos pastos. Essa estratégia funciona sem serem punidos pelos embargos anteriores, acusando os “grilos” da invasão e posterior derrubada.

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Acampamento de grileiros. Foto do autor.

E uma tragédia já anunciada estar por vir. Os madeireiros e grileiros se fortaleceram com a divulgação da possibilidade de revisão dos limites da Terra Indígena Kawahiva em vários meios de comunicação,  aumentando uma disputa por terras que ocorre desde a interdição da área pela Funai no ano de 2001. As disputas acarretam, rotineiramente, em mortes de ambos os lados, tais como aquelas ocorridas em 2006, entre grileiros, no local chamado de “Capa Braba”, próximo ao local onde atualmente é a Base de Proteção Etnoambiental Kawahiva, da FUNAI.

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Base da Funai na TI Kawahiva do Rio Pardo. Fonte: http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2016-05/amazonia-ameacada-guardioes-lutam-para-manter-floresta-em-pe

A especulação sobre uma eventual diminuição da TI acirra mais a disputa por terras na região, entre fazendeiros, grileiros e madeireiros. Segundo a fala de um grileiro: “Nós perde pra FUNAI mas pra fazendeiro não vamos perder”.

As incertezas sobre o processo de demarcação da TI Kawahiva do Rio Pardo acarreta, sem dúvida, no aumento vertiginoso de conflitos, portanto, a estabilidade fundiária e o reconhecimento  da TI diminui a ocorrência de tais conflitos.

Enquanto já se instala na região uma briga entre fazendeiros e grileiros pela posse de terras que supostamente ficariam fora do novo limite reduzido da terra indígena, os índios Kawahiva com sua estratégia de isolamento continuam, a duras custas, resistindo.

Sem saberem que existe um plano genocida conforme denuncias pela ONG Survival International http://racismoambiental.net.br/2017/04/11/revelado-plano-genocida-para-abrir-territorio-de-tribo-isolada-na-amazonia/ para invasão de seu território, os índios isolados Kawahiva continuam sobrevivendo

Sem saberem que foi formada uma comissão no noroeste do mato grosso https://www.al.mt.gov.br/midia/noticia/181845/visualizar para reivindicar a diminuição da terra indígena, os índios isolados Kawahivas continuam sobrevivendo.

Por: Veri Katukina

 

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