Nota de Pesar

O OPI recebeu com imensa tristeza e preocupação a notícia do óbito do jovem Yanomami, de apenas 15 anos, no último dia 09 de abril. Foi a primeira morte de um indígena considerado de recente contato no Brasil, população altamente vulnerável sob o ponto de vista epidemiológico.

O povo Yanomami, que sofreu com inúmeras epidemias no passado revive mais uma vez um momento de muita insegurança. Nas décadas de 70 e 80, estima-se que havia cerca de 40 mil garimpeiros invadindo seu território, levando todo o tipo de doenças e violência. Parte da população Yanomami também padeceu de epidemias decorrentes de obras de infraestrutura como a construção da Perimetral Norte.

As mortes causadas pelas epidemias ainda estão vivas na memória dos Yanomami. “Não queremos mais passar por tamanho sofrimento. Já foram demais os nossos que morreram das epidemias xawara espalhadas pelos brancos. Nós, que somos o que resta de nossos maiores, queremos voltar a ser tão numerosos quanto eles foram antigamente. Não queremos mais ficar morrendo antes da idade. Queremos nos extinguir só quando tivermos nos tornado velhos de cabeça branca, já encolhidos, descarnados e cegos. Queremos que o ser da morte, que chamamos Nomasiri, e o da noite, Titiri, só nos façam desaparecer quando tiver realmente chegado a hora. Então, ficaremos felizes de morrer, pois teremos vivido bastante tempo, como acontecia com nossos antepassados, antes de encontrarem os brancos. Em Marakana, os nossos parentes eram muito numerosos e gozavam todos de plena saúde quando foram dizimados de repente — mulheres, crianças e velhos. Por isso suas mortes me enfurecem até hoje. Essas palavras de luto existem em mim desde a minha infância, e é delas também que me vem a força para falar duro com os brancos” (KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: Palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 251).

Os Yanomami se recuperaram com uma força resiliente, aumentaram sua população após a demarcação de seu território tradicional e o estabelecimento de políticas de atendimento à saúde e assistência. Atualmente os mais de 27 mil yanomami vivem em cerca de 270 aldeias no Brasil e mais centenas na Venezuela. É um povo que mantém viva uma imensa diversidade sociocultural com suas línguas, seus rituais e sua cosmologia. E que maneja o mundo de maneira sustentável com seus suntuosos bananais e suas fantásticas técnicas de caçada e coleta. Um povo que sorri com seu tabaco nos lábios.  Os Yanomami querem viver em paz, simplesmente. No entanto, hoje vivem outra invasão garimpeira de grandes proporções.

A Hutukara Associação Yanomami estima que existam 20 mil garimpeiros atuando de maneira ilegal na terra indígena. Garimpeiros que se locomovem livremente, como os “espíritos queixadas” chafurdando a terra, destruindo a terra-floresta-mundo urihi, levando violências e, agora, além da malária e de outras enfermidades, o novo corona vírus para o povo Yanomami. Nunca a fala de Davi Kopenawa e dos mestres xamãs yanomami foi tão atual. O céu cairá quando o último xamã Yanomami deixar de existir, matando todos os povos, inclusive os “brancos”.

O OPI cobra das instituições competentes que o falecimento do jovem indígena não seja em vão; que seja aviso e advertência da necessidade urgente de proteção aos povos indígenas. Ainda, que todas as medidas de contingência sejam tomadas o quanto antes, com respeito à Recomendação nº 11/2020-MPF e à Portaria Conjunta 4.094 MS/FUNAI, além do reforço das medidas para coibir o garimpo ilegal para que um novo processo de genocídio não ocorra de fato.

E para que o céu não caia sobre todos nós…

Foto em destaque: Vista aérea de garimpos ilegais na TI Yanomami, próximo à comunidade Ye’kwana, região Waikás. Rogério Assis/ISA.

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